Hoje é meu primeiro dia na ThoughtWorks.
Esse post é duas coisas ao mesmo tempo: uma pessoal, sobre como eu cheguei aqui saindo do Grupo RBS em Porto Alegre, e uma de introdução, porque muita gente que me perguntou sobre isso — amigos da RBS, família e amigos antigos lá de Natal — nunca ouviu falar da ThoughtWorks e educadamente quis saber o que eu tô fazendo. Tô pegando emprestada a forma de um post on joining X que um amigo escreveu sobre outra empresa; o tipo que conta a história pessoal honestamente enquanto também explica pra onde você tá indo pras pessoas que não vinham acompanhando a empresa. Vamos tentar.
Até sexta passada eu tava na RBS, o grupo de mídia em Porto Alegre, trabalhando com plataformas de conteúdo e a stack que roda elas em escala. Dois anos lá. Time ótimo, produto real, coisas que eu tinha entregado e ainda tinha orgulho. Nada disso era motivo pra sair. Era motivo pra ficar.
O que me puxou pra fora não foi uma busca. Algumas semanas atrás Paulo Caroli — alguém com quem eu vinha cruzando caminho pela comunidade ágil brasileira desde 2010, quando vi ele dar uma palestra sobre card walls no Agile Brazil — me mandou uma mensagem. ThoughtWorks Brasil tava contratando; eu tava interessado? Eu não tava caçando emprego; nem tava contando pra ninguém que tava. Mas eu tava perto o bastante da ThoughtWorks, de fora, por tempo o suficiente, pra ler a mensagem e responder antes de pensar direito.
Essa parte precisa de contexto, porque a maior parte das pessoas me perguntando o que é TW não tava do lado do palco nas conferências em que a resposta vinha se desdobrando. Por uns quatro anos agora, Porto Alegre tinha sido onde muito do ágil brasileiro tava acontecendo — palestras, comunidades, reuniões da agile-rs, os primeiros anos do Agile Brazil — e gente da ThoughtWorks continuava sendo quem ficava na frente da sala. Os nomes que viraram familiares pra mim nesses eventos foram Caroli, Mariana Bravo, Hugo Corbucci, Francisco Trindade, Danilo Sato, Carlos Vilela, Phil Calçado — gente com quem eu apertava a mão num meetup num mês e via dando keynote no mês seguinte, o tipo de comunidade pequena em que você aprende, ensina, e aprende de novo com quem aparecer da próxima vez. De fora do Brasil, mesma forma, mas os nomes vinham pelos livros e palestras: Martin Fowler, Jez Humble, Rebecca Parsons, Jim Webber, Neal Ford, Pat Kua. Quase tudo que eu vinha lendo sobre como times bons de engenharia de fato entregam — Refactoring, Patterns of Enterprise Application Architecture, Continuous Delivery, REST in Practice, Domain-Specific Languages, NoSQL Distilled, o artigo de Continuous Integration, o Technology Radar duas vezes por ano, o artigo de microservices que Fowler e James Lewis publicaram em março — era algo que um ThoughtWorker tinha escrito pro resto da gente. O Manifesto Ágil de 2001 teve um TWer (Fowler) entre seus dezessete signatários. A empresa faz vinte e um anos esse ano — fundada em Chicago em 1993 por Roy Singham; a ThoughtWorks Brasil tem escritórios em Porto Alegre e Recife. Nada desse resumo é o que eu falaria pra um TWer. Essa é a versão que eu daria pra minha mãe.
Então quando a mensagem do Caroli chegou, a parte de aprender sobre a empresa já estava feita. A pergunta era outra: eu queria entrar.
A coisa que eu precisava pensar bem era que, nos últimos dois anos, o que eu mais tinha gostado da RBS era estar perto de um produto e de um time que ficou junto tempo o suficiente pra de fato conviver com o que a gente construía. Consultoria, do jeito que eu tinha visto funcionar antes da TW, consegue corroer isso. Corpos por hora, contratos que terminam, times que se espalham quando o contrato acaba. Eu tinha memórias específicas ruins dessa forma, e a ideia de voltar pra ela me deu pausa.
Algumas conversas com Caroli e outros da ThoughtWorks Brasil me caminharam de volta da preocupação. O modelo da TW não é corpo por hora. Engenheiros ficam em projetos tempo o suficiente pro trabalho significar algo pra eles. Rotações entre times acontecem de propósito — pelo crescimento do engenheiro, não porque o contrato expirou. E no Brasil especificamente, o time vinha investindo tempo real na comunidade local (a mesma comunidade da qual eu já fazia parte) — publicando, palestrando, patrocinando meetups — construindo de volta, não extraindo. A coisa que eu tava preocupado não era uma coisa aqui, e a coisa que eu vinha silenciosamente querendo — estar dentro da conversa em que as práticas que eu vinha estudando são de fato feitas — era muito real.
Algumas sessões de pareamento, algumas entrevistas, e um monte de cafés longos com gente com quem eu já tava em primeiro-nome depois, eu não tava sendo recrutado — tava sendo convidado pra uma sala em que eu vinha batendo na porta há quase uma década. Isso fechou.
Hoje comecei. Meu primeiro projeto é com um varejista grande de San Francisco — vou trabalhar de Porto Alegre, em par através de um oceano e várias time zones, com o tipo de trabalho de e-commerce que eu não tinha feito antes mas tava animado pra fazer. Microservices em peso, REST do começo ao fim, test-driven até as costuras, uma arquitetura event-driven com RabbitMQ e Kafka por baixo, rodando em Azure. O artigo do Fowler/Lewis de março está nas fundações do jeito que o time tá montado; esse timing não é coincidência e eu não tô fingindo que é. Projeto internacional, escala real voltada ao cliente final, em par com gente com quem eu tinha todo motivo pra esperar aprender.
Então: é isso. Pros amigos da RBS que tô deixando — obrigado, e um abraço grande. Pros amigos e família lá de Natal que ouviram eu falar ThoughtWorks por anos sem entender bem o que eu queria dizer — é isso que eu queria dizer. Os livros e os nomes que vocês acabaram de ver acima são deles, e a partir de hoje eu divido cozinha com as pessoas por trás deles. E pra qualquer um na comunidade brasileira de que faço parte desde 2010 que também vinha olhando ThoughtWorks de fora — a gente se vê no próximo evento, e se você anda pensando nisso, pergunta. A água tá boa.